Sabe qual o problema de ser todo amor? É que tem muita gente precisando.
Quem tem muito amor pra dar não sabe dizer não. Quem tem muito amor pra dar corre sempre o risco de, vez por outra, perceber-se exausto. A demanda por amor hoje [hoje?] é altíssima e a oferta tende a rarear, sempre. Por isso, você, ser-amor, não se surpreenda se em poucas horas receber telefonemas, e-mails, DMs, mensagens de texto e conversas olho-no-olho contendo os males do mundo inteiro e o pesar de muitos corações. O peso do mundo esmaga as costas do ser-amor. O ser-amor é como um açude - sempre matando a sede alheia.
Só que... bem... quem convive com seca sabe que açudes precisam de chuva pra se manterem cheios e sadios. A água que enche o açude e sacia as aldeias não surge do nada. Precisa vir de algum lugar. Ao contrário da água, no entanto, acredito no poder autogerador do amor. O ser-amor tende a ser retroalimentado. Quanto mais ele dá, mais ele tem.
Mas uma chuvinha sempre ajuda, né?
Meu ser-amor, como todo ser-amor, carrega o peso do mundo nos ombros. São ombros estreitos, poxa. Meu ser amor tem um amor amplamente renovável, mas a demanda só cresce.
Meu ser-amor tem na extensão de sua carne um outro corpo. Que ele lembre sempre de distribuir o peso do mundo igualmente. Ele tem quatro ombros, quatro braços, quatro mãos. Ser-amor, não use apenas duas - distribuir o peso é o segredo pra reduzir a pressão.
Meu ser-amor tem na extensão de sua geografia um rio que deságua nele, uma nuvem pesada que lhe chove abundante, olhos-lagoas sempre dispostos a escorrer. Que essas águas, fluviais, pluviais, lacrimais lhe sejam fonte. Que o amor que lhe tenho chegue sempre em enxurrada, renovando seu lençol.
Ser-amor, você que carrega o peso do mundo nos ombros, divida esse peso comigo, sempre, sem medo.
Ser-amor, você que sacia a sede de cidades inteiras, beba do meu amor sem reservas e seja sempre abundante.







Sei que foi para o Laion, mas também vou tomar esse texto para o meu caso. Tenho um ser-amor que carrega uma nau de gentes e pesos e também tem a tendência de não dividi-los, de se deixar quase secar até abrir mão de carregar tudo sozinha... E que às vezes fecha suas compotas e suporta tudo até transbordar. E eu, muitas vezes, não sei o que faço. Pq também quero ser afluente da represa e ter o poder de dar vazão a ela. =/